Actividade Teatral – Pavilhão de Ginástica-Rítmica
Reflexão genérica
Pela análise global da actividade teatral, foi possível concluir que o tema mais evocado foi a obesidade e as problemáticas que lhe estão inerentes. Seria mais enriquecedora a diversidade temática e o afastamento da familiarização das contingentes representadas. Não obstante, foi possível verificar explorações originais e diferenciais da mesma temática e registo teatrais bastante válidos. De uma forma lúdica foi possível abordar aspectos comuns e centrais do dia-a-dia das crianças em meio escolar, e não só. Foi também interessante observar a relação feita com os objectivos e a caracterização da especialização em que os alunos estão integrados, tendo sido possível retratar actividades que decorreram numa aula de Educação Física.
Procurei fazer uma análise individual de cada obra/representação, o que se afigurou uma tarefa complexa, já que a duração de algumas delas foi bastante escassa e existiram perturbações ao entendimento de outras, naturais aos espaço e à plateia envolvida. Assim sendo, as reflexões não são mais do que notas que enfatizam pormenores, que por alguma razão, captaram a minha atenção e a minha postura crítica.
Fiz uma análise mais específica da representação do meu grupo, não por ser aquela a que pertenço, ou por que a queira realçar, mas porque nenhuma das obras teve impacto na minha consciência. Pela banalidade da abordagem são problemáticas já muito debatidas e pensadas, sobretudo para quem projecta ser um profissional na área do desporto e da actividade física. Assim sendo, escolhi a história 3 porque se diferenciou mais dos tópicos restantes, não a querendo sublevar ou descurar o valor de nenhuma outra. O exercício de auto-análise é, a meu ver, igualmente válido e já que a actividade decorre num ambiente colectivo, não beneficia unicamente o indivíduo.
História 1
História bem caracterizada no registo teatral pelo sentido espirituoso e satírico, com o contraste entre o anjo e o diabo a proporcionarem uma boa imagem do dilema central. Apesar do recurso a estes elementos, fica a ideia de que o guião é pobre em conteúdo e que, possa ser uma boa iniciativa enriquecer o seu conteúdo lírico, para consolidar e robustecer a mensagem que se pretende transmitir.
História 2
Boa dinâmica de participação colectiva e faz sobressair a exclusão social do elemento primário. História sintética e pobre em conteúdo, dificilmente gera controvérsia e reflexão por parte da audiência.
História 3
Guião bem elaborado, de forma a caracterizar e enfatizar o ponto nebrálgico da história. Representa uma progressão cronológica coerente, que procura sobressair as repercussões de uma vida sedentária a longo prazo, contrapondo com um estilo de vida saudável.
A representação beneficiará se a projecção de voz for mais elevada, este aspecto deve ser treinado, já que o diálogo é predominante.
A 2ª cena foi representada, a meu ver, com um simbolismo nostálgico necessário mas excessivo. É certo que, o dramatismo é marcante, mas deve ser mais moderado e adequado ao contexto da história, para que tenha uma expressão forte, mas não depressiva.
Aqui jaz uma antítese perpétua e irresolúvel, entre a noção horariciana de “carpe diem” e a efemeridade do tempo com a visão moderna de uma vida planeada e delineada que antevê um futuro duradoiro. Estes dois conceitos convergem na sua essência e são divergências intemporais.
O conceito de aproveitar o tempo de forma espontânea sem reflexões sobre as suas repercussões reúne simpatia de muitos, porque é fácil e imediato, não exige ponderação. A segunda ideia é mais difícil e pode ser ingrata, porque o futuro tem um carácter imprevisível.
Nesta história, concretamente, é patenteada a ironia do estilo de vida espontâneo e jovial de um indivíduo na flor da idade e seu estado frágil nos anos últimos de sua vida, com a história de um outro indivíduo que tem a responsabilidade e a ponderação de alguém mais velho na sua adolescência e consegue ter experiencias próprias de um jovem na fase adulta.
História 4
A cena decorre em contexto de intervalo de uma aula, em que os alunos se juntam para jogar futebol. Um aluno com obesidade é colocado em situação de jogo como guarda-redes. A mensagem é pouco clara.
História 5
Existe uma progressão lógica e elaborada, que parece ter sido bem transmitida para o acto teatral. A envolvência da história parece tecer uma critica negativa ao sedentarismo e à obesidade pelo seu impacto social, fazendo um paralelismo amplificado com um estilo de vida mais activo e uma melhor repercussão social.
História 6
A premissa é construída em torno de um indivíduo com dificuldades diversas, obesidade, diabetes e sedentarismo, que se vê confrontado com a exclusão social e com fenómenos comummente designados por “bulling”. A utilização do exagero foi bem empregue.
História 7
O argumento aborda a problemática da obesidade com criatividade e explorando os conceitos que lhe são subjacentes promovendo a reflexão. O tópico da nutrição não foi explorado.
História 8
Alusão a mensagens de carácter sonoro e visual para expor estados de espírito e reforçar o ambiente criado pela narrativa.
História 9
Na decorrência de uma aula de educação física cria-se um ambiente que fomenta os conceitos de obesidade e as suas consequências num meio social juvenil. O diálogo é demasiado longo e pouco objectivo.
Etnografia (Trabalho de Pesquisa)
A raíz etimológica da designação "etnografia" reside nos vocábulos gregos "etnos" -povo e "grápho" - descrever. Descrever um povo. Tarefa simples mas de todo complexa!
O Sec. XIX viu no mundo ocidental um desencadear de eventos e feitos em todas as áreas do empreendimento humano, onde a sede do apura e aprofundamento do conhecimento se fazia sentir em todos os círculos intelectuais. A polémica obra de Charles Darwin, "A Origem da Espécies", publicada em 1859, entre outras de autores contemporâneos tais como Letourneau, pela sua abordagem de um vasto leque de perenes interrogações: os porquês e comos existenciais, incentivam inúmeros investigadores que, com o decurso do tempo, ramificam os campos de estudo para disciplinas tais como a Etnografia, Sociologia, Demografia, que nascem das matrizes da História e Arqueologia.
Na década 70 do século XX, estas voltariam a reunir-se no holismo da Transdisciplinaridade e a Etnografia desembocaria na antroplogia socio-cultural.
O objectivo principal da Etnografia é identificar a passagem do indivíduo inserto nos micro colectivos mutáveis, que albergam nos seus comportamentos sociológicos, os conceitos maiores de etnia, região, povo e, por fim, nação.
Segundo Michael Genzuk (op. cit.) etnografia é um método de olhar de muito perto, que se baseia em experiência pessoal e em participação, que envolve três formas de recolher dados: entrevistas, observação e documentos, os quais, por sua vez, produzem três tipos de dados: citações, descrições e excertos de documentos, que resultam num único produto: a descrição narrativa. Esta inclui gráficos, diagramas e artefactos, que ajudam a contar “a história”.
Para Genzuk, os três princípios metodológicos que constituem o rationale do método etnográfico são os seguintes:
a) Naturalismo. O objectivo da pesquisa social é a compreensão do comportamento humano, o que só pode ser conseguido através de um contacto directo e não através de inferências a partir do modo como as pessoas se comportam em ambientes experimentais e artificiais, ou a partir do modo como elas declaram comportar-se, em entrevistas. Esta é a razão pela qual os investigadores etnográficos levam a cabo as suas investigações em cenários “naturais”, que existem independentemente do processo de investigação, em vez de as efectuarem em ambientes especialmente preparados para o efeito. Como é evidente, no primeiro caso – em cenários naturais – o investigador tenta minimizar o efeito da sua presença no comportamento das pessoas em estudo, com o propósito, além da fidelidade, de aumentar as hipóteses de o que vier a ser revelado seja generalizável para situações semelhantes que não foram ainda estudadas. Além disso, a ideia de naturalismo implica que os acontecimentos e os processos sociais devem ser explicados em função da sua relação com o contexto onde decorrem.
b) Compreensão. Quem quiser ser capaz de explicar as acções humanas, de uma forma convincente, deve ser capaz de compreender as perspectivas culturais em que elas se baseiam, sendo este argumento ainda mais importante quando pretendemos estudar situações mais familiares. De facto, quando uma situação é familiar, o risco de não compreensão é muito maior. (Como recorda Driss Alaoui (2002), a importância da etnografia reside, entre outras coisas, na sua capacidade de tornar estranho o que nos é familiar e de levar o observador, pelo acto de olhar, a demorar sobre o observável para o descrever e problematizar). Portanto, talvez não possamos assumir que já conhecemos as perspectivas dos outros, mesmo na nossa própria sociedade, porque alguns grupos ou alguns indivíduos desenvolvem visões do mundo peculiares, sendo isto particularmente verdade em sociedades grandes e complexas. Pequenos grupos étnicos, ocupacionais e informais (incluindo famílias ou turmas escolares) desenvolvem maneiras distintas de se posicionarem perante o mundo, que têm de ser previamente compreendidas, por quem pretende explicar o seu comportamento. Assim, de um ponto de vista etnográfico, é necessário compreender a cultura do grupo em estudo antes de se poderem avançar explicações válidas para o comportamento dos seus membros. Daí a razão para a centralidade da observação participante e das entrevistas não estruturadas no método etnográfico.
c) Descoberta. Outra característica do pensamento etnográfico é a concepção da investigação como um processo indutivo ou baseado na descoberta, em vez de ser limitado pela testagem de hipóteses explícitas. Quem aborda um fenómeno já munido de um conjunto de hipóteses, pode falhar na descoberta da verdadeira natureza desse fenómeno, devido à cegueira que pode derivar de assumpções embebidas nas hipóteses.
No entanto, as hipóteses podem ser importantes em certos tipos de fenómenos sociais, porque, através delas, o foco da investigação concentra-se e torna-se mais preciso, mesmo que vá mudando substancialmente à medida que avança. Ao mesmo tempo e do mesmo modo, ideias envolvendo descrições e explicações do que é observado evoluem no decurso da investigação. O método etnográfico considera essas ideias como sendo resultados importantes e não pré-requisitos para a investigação.
Segundo Hammersley (1990), o termo “etnografia” refere, em termos metodológicos, investigação social que comporte a generalidade das seguintes funções:
a) o comportamento das pessoas é estudado no seu contexto habitual e não em condições artificiais criadas pelo investigador;
b) os dados são recolhidos através de fontes diversas, sendo a observação e a conversação informal as mais importantes;
c) a recolha de dados não é estruturada, no sentido em que não decorre da execução de um plano detalhado e anterior ao seu início, nem são pré-estabelecidas as categorias que serão posteriormente usadas para interpretar o comportamento das pessoas (o que não significa que a investigação não seja sistemática, mas apenas que os dados são recolhidos em bruto, segundo um critério tão inclusivo quanto possível);
d) o foco do estudo é um grupo não muito grande de pessoas, mas, na investigação de uma história de vida, o foco pode ser uma única pessoa;
e) a análise dos dados envolve interpretação de significado e de função de acções humanas e assume uma forma descritiva e interpretativa, tendo a (pouca) quantificação e análise estatística incluída, um papel meramente acessório.
Referências Bibliográficas:
Ø FINO, Carlos Nogueira; A etnografia enquanto método: um modo de entender as culturas (escolares) locais In: Actas do II Colóquio DCE-UMa. Funchal: Universidade da Madeira. 2006.
Ø ETNOGRAFIA, disponível em: https://www.adiaspora.com/_port/etnogra/index.htm